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11/04/16

Resenha: Todo Dia - David Levithan


Todo Dia
David Levithan
Editora Galera Record
280 páginas

☺☺☺☺

Sinopse: Neste novo romance, David Levithan leva a criatividade a outro patamar. Seu protagonista, A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Depois de 16 anos vivendo assim, A já aprendeu a seguir as próprias regras: nunca interferir, nem se envolver. Até que uma manhã acorda no corpo de Justin e conhece sua namorada, Rhiannon. A partir desse momento, todas as suas prioridades mudam, e, conforme se envolvem mais, lutando para se reencontrar a cada 24 horas, A e Rhiannon precisam questionar tudo em nome do amor.

Todo Dia tem uma premissa, no mínimo, curiosa. Já faz algum tempo que venho lendo resenhas positivas acerca dessa obra de David Levithan, mas, por uma razão ou outra, só me veio a real vontade de ler agora. Tenho uma porção de livros não lidos e quero doar cerca de 70% deles. A maioria é de parceria e há uma porcentagem ótima de obras bem bacanas, mas que não me desperta mais tanto interesse quanto antes. Como não há mais espaço na minha estante e eu quero muito adquirir uma porção de livros nos próximos meses que condiz muito mais com a minha atual fase de leitora, preciso liberar lugares no meu cantinho de livros.
E o dilema se deu. Depois que acabei de ler Garota Exemplar, fiquei perdida em meio a tantos livros físicos e alguns virtuais do meu acervo. Passei por uns momentos de "E aí, o que ler agora?". E, plim!, comecei a ler Todo Dia no Kindle que veio instalado no meu notebook (a Amazon me ofereceu trinta dias grátis, coisa que aceitei de bom grado). É o primeiro livro que leio de David. E, à medida que lia, fui sendo, gradativamente, enredada pela trama, pelo protagonista chamado, simplesmente, de A e por sua incomum forma de viver e existir.
Quando disse anteriormente que esse livro tem uma proposta no mínimo curiosa, me referi exatamente ao protagonista que David Levithan criou. Ele é um adolescente de 16 anos, mas ele não tem gênero definido. Eu estou me referindo a ele no sentido de ser e não de rapaz. Na tradução da Galera Record, A é tratado como ele, mas desconfio de que seja porque não há, em português, um pronome neutro equivalente ao it do inglês.
A acorda todos os dias no corpo de um adolescente diferente, mas sempre da sua idade. De início, achei estranho. É como se por um dia o dono do corpo ficasse "sem controle" de si mesmo, pois A está o hospedando por 24hrs. Não há explicações claras por que isso acontece, o protagonista não sabe nos dizer. A tenta interferir o mínimo possível na vida de cada adolescente cujo corpo hospeda a cada dia. De uma maneira misteriosa, ele tem acesso ao cérebro, contendo informações e memórias do dono do corpo; sendo assim, ele consegue agir do modo mais natural possível, sem despertar muitas suspeitas de familiares e amigos desses adolescentes.
Há uns dias em que A acorda num corpo de uma menina, em outros, num de menino. Essas meninas e meninos podem ser magros, gordos, baixos, altos, viciados em drogas, deprimidos, fúteis etc. Ainda que ele não possa mudar essas pessoas, porque não é seu direito, nem daria tempo de fazer isso em 24hrs, A tenta fazer com que o dia termine bem e que a pessoa cujo corpo ele "morou por um dia" tenha boas sensações a respeito do dia em que ela passou "fora do ar" sem saber.
As coisas passam a mudar dentro de e para A quando ele acorda no corpo de Justin, um garoto de personalidade duvidosa, sem tato no trato com os outros, com características morais deploráveis e irritantes, mas que namora uma moça muito legal chamada Rhiannon. A, um ser doce e agradável, se encanta pela moça e a proporciona um aprazível dia. Rhiannon estranha bastante o jeito do namorado, que, costumeiramente é um brutamontes, contudo resolve se entregar ao momento mágico e se apega ao que de bom o dia pode oferecer. É, então, que começa toda a saga de A para encontrar Rhiannon todos os dias, estando ele sempre em um corpo e local diferentes, bem como para revelar a ela o seu raro modo de vida.
Todo Dia se enquadra no gênero literário Jovens Adultos (Young Adults), gênero que não costumo ler com frequência, mas que, em geral, tenho a sorte de ler ótimas obras quando resolvo me aventurar por ele. Esse, em especial, me ganhou sem muito esforço. David Levithan escreve de uma forma fluida, gostosa e bonita. Nesse livro, ele aborda temas pertinentes, e, em sua maioria, procura prezar pelo respeito ao próximo, seja esse próximo como for. David é conhecido por retratar, em suas obras, questões muito importantes concernentes a comunidade LGBT. Não foi diferente em Todo Dia.
Além de delinear muitíssimo bem a homossexualidade, percebi problematizações essenciais, embora nas entrelinhas, no que se refere a identidade de gênero nesse livro, especialmente ao gênero líquido/fluído. O que achei sensacional da parte de Levithan, porque é algo que não vejo sendo abordado em livros, filmes etc. Ruby Rose, uma das detentas em Litchfield, do seriado Orange Is the New Black, se denomina como gênero fluído. Ela, junto com a sua então namorada Phoebe Dahl (neta do escritor Roald Dahl, que deu vida a Matilda), produziu um curta interessante sobre o tema. Vale assistir, pois parece ilustrar bem o que sente uma pessoa com essa identidade de gênero.
Por fim, quero dizer que A ganhou o meu coração, e o jeito com o qual descreveu o amor e ao ato de amar foi poético, tocante e emocionante. Minhas queixas com Levithan, e espero não dar nenhum grande spoiler aqui, se devem apenas aos fatos de ele ter retratado a obesidade de uma maneira pouco respeitosa, e que eu diria até, em certa medida, discriminatória. Fiquei um pouco chocada com essa parte, porque em todo o livro se vê uma preocupação enorme com o respeito e a dignidade ao ser humano e suas características/particularidades, então não entendi o porquê de Levithan ter tratado esse tema da forma como o tratou: desprovido de respeito e empatia. O segundo e último fato foi ter deixado em aberto algumas perguntas que ajudariam o leitor a entender a origem e o modo de vida de A, sobretudo em relação ao desfecho meio abrupto. Pelo que pesquisei, não há sequência para o livro, o que é uma pena, visto que não vou obter as respostas desejadas. Na verdade, será lançado, acredito que em breve, Another Day, que é a mesma estória, mas, dessa vez, sob a ótica de Rhiannon. Dei uma olhada nos comentários feitos nesse livro postados no goodreads e, pelo pouco que sei de inglês, os leitores ficaram um pouco decepcionados porque essa obra não se trata de uma continuação, assim parece que esse livro traz nada de novo ou revelador.
Ainda assim, com essas minhas ressalvas que não pude deixar de fazer, recomendo Todo Dia a todos que gostam de um bom romance. É uma trama que nos ganha pela premissa inovadora e pela fluidez como o enredo é desenvolvido. Quatro smiles para Todo Dia, de David Levithan!

Erica Ferro

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28/03/16

Resenha: Garota Exemplar - Gillian Flynn


Garota Exemplar
Gillian Flynn
Editora Intrínseca
448 páginas

☺☺☺☺

Sinopse: Uma das mais aclamadas escritoras de suspense da atualidade, Gillian Flynn apresenta um relato perturbador sobre um casamento em crise. Com 4 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo – o maior sucesso editorial do ano, atrás apenas da Trilogia Cinquenta tons de cinza –, "Garota Exemplar" alia humor perspicaz a uma narrativa eletrizante. O resultado é uma atmosfera de dúvidas que faz o leitor mudar de opinião a cada capítulo. Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública – e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy –, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino? Com sua irmã gêmea Margo a seu lado, Nick afirma inocência. O problema é: se não foi Nick, onde está Amy? E por que todas as pistas apontam para ele?

Peço que me perdoem pelo trocadilho infame que farei nesse exato momento, mas, sabem como é, não resisto: Garota Exemplar é um exemplo de excelente livro. Quantas e quantas vezes já li blogueiros/vlogueiros rasgando elogios a escrita de Gillian Flynn? Muitas! Imagino que a maioria de vocês também conheça a boa fama dessa escritora. Gillian é formada em jornalismo e inglês pela Universidade do Kansas. Trabalhou, por dez anos, como crítica de cinema e TV para a Entertainment Weekly. Atualmente, ela se dedica de forma integral à sua vida de escritora.
E, bem, depois de ler inúmeras resenhas sobre seus livros, eis que, então, no fim do ano passado, aproveitei uma maravilhosa promoção da Amazon e adquiri Garota Exemplar. A Editora Intrínseca foi a responsável pelo lançamento da primeira edição dessa obra aqui no Brasil, em 2012. Em 2014, foi lançado o filme homônimo, dirigido por David Fincher, no qual Gillian atuou como roteirista. No elenco, há Ben Affleck no papel de Nick, Rosamund Pike como Amy e o meu eterno BarneyNeil Patrick Harris, interpretando Desi. A Intrínseca lançou uma segunda edição da obra, com o projeto gráfico semelhante ao do filme. E é essa edição que tenho. Confesso que gosto mais do projeto gráfico da primeira edição, mas, sabe-se lá por que, acabei comprando a segunda.
Após uma longa introdução, vamos aos meus comentários acerca desse livro cativante. O livro nos apresenta a Nick Dunne e Amy Elliott. Um casal quase comum: se conhecem numa festa, passam um bom tempo sem se ver, então se reencontram e resolvem se casar. E, no comecinho, era tudo tão fantástico, eles se completavam tão bem e eram sensacionais juntos. Que sintonia mágica! Que maravilha de início de vida a dois! Perfeito, exemplar! Será?
A narrativa se dá em primeira pessoa: ora por Nick, ora por Amy. A fala de Nick é sempre sobre algo que está ocorrendo no presente, enquanto que a de Amy se inicia no passado e, conforme a trama se desenvolve, o tempo de sua fala passa ao presente. Esse recurso escolhido pela autora foi maravilhoso, porque nos permite entrar "na cabeça" de ambos. O leitor tem a chance de simpatizar com ambos, amar ambos, odiar ambos, suspeitar de ambos, só para, então, voltar a estaca zero, pois os próximos passos quase nunca são fáceis de predizer e é capaz de pegar o mais esperto de calças curtas.
Nick e Amy viveram o início de seu casamento em Nova York, e era tudo muito perfeito. Quando tiveram de se mudar para cidade Natal de Nick, North Carthage, para que ele pudesse estar mais perto de sua mãe que enfrentava um câncer, as coisas começaram a sair dos eixos... Até ao ponto de Amy desaparecer. E aí, meus queridos leitores, foi nesse ponto que lascou foi tudo. Há uma investigação para descobrir o que houve com Amy, que, em certo momento, Nick figura como o principal suspeito pelo desaparecimento de sua esposa.
Gillian criou uma estória tão bem amarrada, tão bem construída, que me fisgou completamente. E ela é gosta de jogar com o leitor. Gillian é uma exímia jogadora. Criou dois personagens que despertam em nós sentimentos antagônicos. Vamos do amor ao ódio e do ódio ao amor com muita facilidade por esses dois. A cada capítulo, somos surpreendidos por um segredo ou por uma faceta que sequer desconfiávamos em relação a eles. Não conseguimos ficar de um lado por muito tempo. Em um momento, acreditamos na verdade de Nick; em outro, na de Amy. A verdade é que essa Gillian é danada! Ela desnuda a mente humana com uma habilidade admirável. E nós, leitores, vamos juntos, mergulhando fundo na mente e na alma dos personagens, conhecendo, atônitos, suas ideias mais obscuras e seus comportamentos mais macabros. O desfecho me irritou um pouco, embora eu saiba que fez sentido e que nem de longe foi clichê.
Garota Exemplar é um suspense incrível, no qual podemos ver a feiura que há por trás de relacionamentos aparentemente perfeitos, bem como nos assombrarmos em ver o quanto seres humanos podem ser terríveis uns com outros para satisfazer seu próprio ego psicótico e/ou psicopático.
A mente humana pode ser adjetivada de várias formas. A da Gillian pode ser descrita como uma mente genial, que sabe bolar uma estória igualmente genial e ser capaz de conquistar a admiração de inúmeros leitores ao redor do mundo. A escrita de Gillian me ganhou. Virei fã dessa mulher e já quero ler outros livros dessa autora extremamente talentosa. E, agora que li o livro, vou procurar assistir o filme.
Esse livro é pra você, que adora um livro que te pega de jeito e não permite que você o largue sem devorar boas páginas dele de uma só vez. Esse livro é pra você, que adora um jogo de gato e rato. Esse livro é pra você, que adora protagonistas bem elaborados, com uma inteligência acima da média e com comportamentos nada previsíveis.

Erica Ferro

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22/01/16

Filme: Anita

Título: Anita
Ano de produção: 2009
Direção: Marcos Carnevale
Duração: 104 minutos
Gênero: Drama
País: Argentina
Sinopse: Anita é uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com sua mãe, Dora, que, além de mãe, é uma cuidadora extremamente zelosa. Na manhã de 18 de julho de 1994, Dora sai de casa para ir a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA resolver umas coisas, e deixa Anita em casa, lhe avisando que volta logo. No entanto, há um ataque a bomba na AMIA, e os tremores chegam a residência de Anita, destruindo parte da casa e dos móveis. Sozinha e sem entender o que está se passando, Anita sai às ruas. Nessa perambulação na procura por sua mãe, aprende a cuidar de si mesma, à sua maneira, e encontra algumas pessoas gentis e outras nem tanto assim, sempre as tocando de forma singular.

O ano é o de 1994 e a estória é a de Anita, uma jovem mulher com síndrome de Down que mora com a sua mãe, Dora, em Buenos Aires. Dora é extremamente cuidadosa para com Anita. Trata-a como uma boneca de porcelana, lhe faz Maria-chiquinha e lida com a filha como se esta fosse uma criança de, no máximo, cinco anos. Dora se esqueceu de que não possuía a dádiva da imortalidade e não criou uma Anita com o mínimo de autonomia, capaz de saber de si e dos outros.


Na manhã do dia 18 de julho de 1994, Dora informa a Anita que irá a Associação Mutual Israelita Argentina - AMIA para resolver umas questões, mas logo volta para casa. Poucos minutos depois que Dora saiu de casa, houve um trágico acontecimento: um atentado a bomba a AMIA, que matou 85 pessoas e deixou 300 feridas. O atentado se trata de um caso real e Marcos Carnevale, diretor dessa belíssima película argentina, teve tato para retratá-lo com fidedignidade e respeito às vítimas e seus familiares. O caos do atentado, todas aquelas pessoas perambulando pelas ruas, sofrendo por estarem feridas e/ou por seus parentes estarem desaparecidos ou mortos é o pano de fundo da odisseia de Anita.


A destruição causada pelas bombas chegou até a residência de Anita, destruindo uma parte da casa e dos móveis. Assustada, Anita saiu às ruas, desnorteada, procurando por sua mãe. Extremamente doce e pura, Anita não sabe o endereço de onde mora, o nome de sua mãe ou o número de telefone da sua casa ou de algum parente. Ela não foi criada para lidar com o mundo e as pessoas.


Nessa série de desventuras, Anita se depara com Felix, um fotógrafo com tendência ao alcoolismo, que tem como esporte reclamar da vida e se sentir o homem mais miserável do mundo. Ele permite que Anita fique em sua casa por dois dias e cuida dela da melhor maneira que consegue. No entanto, às vezes, nós, humanos, deixamos falar mais alto aquela máxima egoísta "O que eu tenho a ver com isso?" e lavamos nossas mãos.


Nossa Anita continua em sua caminhada, constatando o quanto as pessoas podem ser adoráveis, bem como podem ser desumanas. Eis que conhece Nori e seu irmão, que, se num primeiro momento não sabem lidar com Anita, logo descobrem o quanto ela é uma pessoa especial, doce e inteligente. Anita, de fato, é uma criatura encantadora e de uma capacidade muito maior do que sua mãe julgava que ela tinha. São eles que ajudam Anita a voltar para os seus familiares.


O atentado a AMIA foi uma dura lição sobre o valor da família para Ariel, irmão de Anita, que estava sempre ocupado demais para sua mãe e sua irmã. Somos muito procrastinadores no nosso dia a dia, ignoramos pedidos simples de quem amamos e que nos ama também, porque estamos muito atarefados para lidar com isso no momento. Erro terrível, pois deixamos passar oportunidades ímpares e desperdiçamos momentos que jamais hão de voltar. Deveríamos dar mais atenção àquele dito "Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje...".


A grande estrela do filme é Anita, que, com a sua doçura e olhar simples frente a vida, encanta a todos que passam por seu caminho. Acredito que um das grandes lições que o filme quer apresentar é justamente a irracionalidade do terrorismo. Terrorismo trata-se de atos bárbaros que destroem famílias e ceifam vidas. Não há nada que justifique atos assim. Nada. 
Outra mensagem fundamental que acredito que o filme busca passar é um alerta aos pais que protegem ao extremo os seus filhos com alguma síndrome e/ou deficiência, lidando com eles como se fossem bebês, como se os deficientes fossem incapazes de viver no mundo e de ter o mínimo de autonomia possível. Somos todos capazes de quebrar barreiras e de ir além do que acham que podemos ir. Com estimulação e uma excelente orientação, todas as pessoas podem ser capazes de feitos extraordinários, tendo uma deficiência ou não. 
E, por último, mas jamais menos importante, o filme é sobre gentileza, amor e simplicidade. A vida fica tão melhor quando adicionamos gentileza, amor e simplicidade aos nossos atos. Tudo bem que gentileza nem sempre gera gentileza, porque sempre existirão pessoas ranzinzas no mundo. No entanto, não é por isso que deixaremos de ser gentis. O amor deve ser sempre o Leitmotiv da nossa vida. Para o nosso cotidiano ser mais florido e a nossa vida ter cores vivas e bonitas, a nossa existência deve ser pautada na gentileza, no amor e na simplicidade. Assim, fica bem mais fácil viver!

O filme tem o ritmo certo para nos encantar, emocionar e nos fazer refletir sobre questões muito importantes acerca da vida e do viver. Para quem indico esse filme? Todos, sem exceção. É um filme com doses certas de agruras, doçura, amor e aprendizados.

Erica Ferro

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19/01/16

Resenha: A garota do penhasco - Lucinda Riley

A garota do penhasco
Lucinda Riley
Novo Conceito
528 páginas
☺☺☺☺
Sinopse: A Garota do Penhasco é um romance que enreda o leitor através de vários fios: a história de Grania Ryan e sua querida Aurora Devonshire, a garota do penhasco, nos fala sobre mudança de vida. A história das famílias Ryan e Lisle é um lindo conto sobre um século de mal-entendidos e rancor entre inimigos que se acreditam enganados por falcatruas financeiras. O caso de amor entre Grania Ryan e Lawrence Lisle comove por sua delicadeza e força vertiginosa que culmina em imensa tristeza. Mas, sobretudo, A Garota do Penhasco é um livro que mostra como é possível encontrar uma finalidade, um propósito, quando todas as esperanças parecem perdidas. “De ritmo tenso e original, este é um romance envolvente sobre recuperação, resgate, novas oportunidades e amor perdido.” -- Booklist

A garota do penhasco foi o meu primeiro contato com a escrita de Lucinda Riley, e posso dizer que foi uma feliz experiência. De acordo com informações do Skoob, a escritora é natural da Irlanda, mas mudou-se para Londres ainda jovem, e lá tornou-se atriz, trabalhando em teatro, cinema e televisão. Depois de adquirir uma bagagem considerável concernente ao ramo da dramaturgia, Lucinda, aos 24 anos, lançou o seu primeiro romance. Atualmente, a autora tem fãs pelo mundo inteiro. Inclusive, de acordo com uma matéria postada pela Saraiva Conteúdo, em 2013, Lucinda diz ter sido aqui, no Brasil, mais especificamente na 22ª Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, que viveu um dos momentos mais ímpares da sua vida. Quando chegou ao estande da Editora Novo Conceito, Lucinda Riley era esperada por aproximadamente duas mil pessoas, que, quando a viram, a aplaudiram com fervor, à espera de um autógrafo.

Por essa singela apresentação, dá para ter uma noção de que Lucinda manda muito bem enquanto escritora e, em decorrência de seu talento, conquistou muitos fãs, certo? Sou apaixonada por livros de época e foi ótimo conhecer uma escritora contemporânea que sabe costurar tão bem passado e presente quanto essa adorável irlandesa. Em A garota do penhasco, Lucinda consegue ligar pessoas de duas famílias, os Ryan e os Lisle, em diferentes épocas. É incrível como, de algum modo, as histórias dessa gente se cruzam e quase sempre o resultado desses encontros não é nada agradável ou bom de se recordar.

Grania Ryan, escultora renomada, depois de anos morando em Nova York, volta a sua cidade de origem após vivenciar uma experiência dolorosa, e isso muda a vida dela para sempre. Sem nem perceber, ela se envolve com a família Lisle de uma forma singular. A garotinha do penhasco, Aurora Devonshire, uma menininha de oito anos com uma energia aparentemente interminável e uma maturidade de um ancião, rouba o coração de Grania e é a grande responsável por transformar o futuro dessa mulher, que até então se encontrava desencantada da vida, sem ânimos e sem perspectivas.

Com o decorrer da trama, com Aurora como narradora da estória, sabemos de todos os problemas e sofrimentos que os Lisle fizeram com que os Ryan passassem. O encontro dessas duas famílias quase sempre resultou em ódio, tristeza e muita dor. Kathleen, mãe de Grania, temendo que a ligação da filha Grania com os Lisle também resultasse em algo trágico, passou a contar todos os acontecimentos lamentáveis do passado envolvendo as duas famílias, com o intuito de convencer a filha a se afastar da menina Aurora e de seu pai, Alexander Devonshire. Aos poucos, Grania descobria um pouco mais sobre seus antepassados e por quantos perrengues eles tiveram de passar por conta dos Lisle, mas, o carinho maternal que nutria por Aurora e o encanto pela pessoa de Alexander, não permitiu que ela se desligasse dos Lisle.

Mary Ryan, bisavó de Grania, uma das personagens que mais me comoveram na estória que Lucinda construiu com esmero, foi uma das que mais sofreram por conta da escolha de se ligar ao Lisle. Após tornar-se adulta e transformar-se numa bailarina famosa, Anna, a quem Mary adotou com tanto amor, não soube ser grata a tanto afeto que essa primeira a dedicou. Lily Lisle, filha de Anna, mãe de Aurora e esposa de Alexander, vivenciou momentos terríveis em sua adolescência, que provavelmente deixaram sua alma perturbada. O irmão de Kathleen, mãe de Grania, esteve envolvido nesses momentos terríveis e, infelizmente, por conta da covardia de uns, mais de Anna do que propriamente de Lily, teve a sua vida arruinada. O ressentimento por parte dos Ryan para com os Lisle foi inevitável - e compreensível. Gerações prejudicadas e vidas destruídas pelos Lisle desregulados e passionais.

Aurora, talvez um ser angelical disfarçado de criança, e seu pai Alexander, um homem encantador, surgem na vida dos Ryan aparentemente com a missão de curar as feridas do passado. Grania, Kathleen e família ganharam a oportunidade de relembrar por todas as coisas que seus familiares passaram e, assim, puderam repensar os seus ódios e remorsos. Há pessoas que são mais anjos do que seres humanos. Materializam-se em nossas vidas para nos ensinar algo, para nos tirar da zona de conforto e, desse modo, nos impulsionar para sermos criaturas melhores, pautadas na positividade e na leveza.

A garota do penhasco é um livro sobre duas famílias que se amaram e se odiaram, que guardaram rancores e ódios, que alimentaram ressentimentos, mas, que, ao fim, a geração mais recente pôde alcançar o amor e o perdão, elementos que são capazes de neutralizar grande parte da negatividade que teima em existir dentro de cada um de nós.

Gosta de livros com uma boa dose de História, drama, romance e doçura? Então, acredito que esse pode ser uma agradável leitura.

Erica Ferro


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19/10/15

Resenha: Para onde ela foi - Gayle Forman

Para onde ela foi
Gayle Forman
Novo Conceito
240 páginas
☺☺☺☺
Sinopse: Se você tivesse uma segunda chance para o primeiro amor... Você aceitaria? Já faz três anos que o amor de Adam salvou Mia após o acidente que mudou a vida dela. Três anos desde que Mia saiu da vida de Adam para sempre. Vivendo agora em lados opostos do país, Mia é um talento em ascensão na Juilliard, a conceituada escola de música, e Adam é o típico astro do rock de Los Angeles, com direito a notícias nos tabloides e uma namorada-celebridade. Quando Adam se vê sozinho em Nova York, o acaso reúne o casal mais uma vez. Por uma noite. Com a mesma força dramática de Se Eu Ficar, agora pela voz de Adam, Para Onde Ela Foi expõe o desalento da perda, a promessa de esperança e a chama do amor que renasce.

Para onde ela foi é a continuação de Se eu ficar, da escritora norte-americana Gayle Forman, e nos revela as transformações e acontecimentos da vida de Adam e Mia após ela ter acordado do coma. Finalizei a leitura de Se eu ficar há exatamente um ano e oito dias. Sei com exatidão, porque a resenha desse livro foi publicada aqui no blog em 11 de outubro de 2014. E, por coincidência ou não, concluí a leitura de Para onde ela foi no dia 13 de outubro desse ano. Pena não ter escrito e publicado a resenha aqui antes. Os motivos são sempre quase os mesmos: falta de tempo e/ou procrastinação etc.
Sem mais delongas, eis minha opinião sobre Para onde ela foi. O livro é narrado em primeira pessoa, assim como em Se eu ficar, mas, dessa vez, não por Mia, e sim por Adam. Como disse anteriormente, li Se eu ficar há mais de um ano, mas, quando comecei esse segundo livro, achei que logo seriam revelados os acontecimentos da vida de Adam e Mia pós-coma, especialmente sobre a de Mia. Eu estava realmente curiosa para saber sobre como estava sendo a vida de Adam e Mia. Algumas perguntas rondavam a minha cabeça: "Como minha estava lidando com o fato de ter perdido toda a sua família de uma só vez num trágico acidente?", "Mia e Adam estavam juntos? Pois, depois do jeito que o primeiro livro terminou, a resposta dessa pergunta ficou subentendida.", etc. 
Adam nos conta tudo, mas no ritmo dele, no tempo dele: gradativamente. A sua narrativa é mesclada por relatos do seu presente e do seu passado, no qual conta o que houve antes com ele, Mia e tudo enfim, bem como nos fala sobre o seu presente como astro do rock, uma vida cheia de glamour, muitos flashs e fãs completamente ensandecidas por ele. A Shooting Star's passou de uma banda interiorana a um sucesso estrondoso. Collateral damage, álbum composto por Adam, foi o "culpado" pelo estouro da banda. Mia não está mais com Adam. Há três anos que ela está do outro lado do país, em New York, estudando numa escola de música extremamente bem conceituada, a Juilliard. Ambos se tornaram pessoas icônicas na música: Adam, no rock; Mia, na música clássica. 
Os dois viajavam o mundo apresentando a sua música. Porém, o fato é que, não importa como a nossa vida seja glamourosa e badalada, se houver algo inconcluído, assuntos pendentes, perguntas primordiais sem respostas, não conseguiremos encontrar a paz e conseguir ver o lado bom do que nos acontece. E era perdido, deprimido e devastado que Adam se sentia. Ele poderia se considerar um cara de sorte por ter conseguido tudo o que qualquer artista quer: estar nas paradas de sucesso, ser renomado e assediado por muitos fãs, etc. Ele conheceu o lado podre do show business, e isso o cansava e estressava a cada dia mais. E Mia... ele sentia tanta falta de Mia, que chegava a dor da saudade esmagava o seu peito, a ponto de ele precisar recorrer aos seus remédios para ansiedade e insônia. Por que ela havia saído de sua vida sem explicação? Era o que ele mais queria saber. E eu, como leitora, também, afinal não conseguia compreender o motivo pela qual ela havia o ignorado por três anos.
Eis que eles se encontram em New York, meio que por acaso, e o encontro é mágico, terno e lindo. Perguntas são respondidas, ciclos são encerrados e novas estórias começam a serem escritas.
Confesso que o primeiro livro não conseguiu me enrendar tão bem quanto esse segundo. A escrita de Gayle nessa segunda parte da estória de Adam e Mia está muito mais visceral, mais profunda e bem mais inquietante. Pontos para autora por ter conseguido encarnar tão bem um jovem músico deprimido, perdido e completamente apaixonado.  Os livros de Gayle Forman são classificados como literatura Young Adult (YA / Jovem Adulto), mas são obras que, diferentemente de títulos de outros autores, tratam de temas mais densos e acontecimentos com uma carga dramática e trágica consideráveis e seus personagens são bem construídos, pouco caricatos, com personalidade própria e estórias cativantes.
Se por um lado Se eu ficar não conseguiu fazer com que eu morresse de amores pela escrita de Gayle, Para onde ela foi cumpriu muito bem o seu papel em me conquistar e fazer com que eu me apaixonasse por Adam e torcesse para que ele encontrasse a paz e o amor que tanto precisava, bem como desejei imensamente que Mia pudesse superar, ao menos um pouco, a dor da perda e da ferina saudade de seus pais e de seu irmão, e tocasse a vida da melhor forma possível, com o amor e a paz de espírito como seus guias.
Caríssimo(a) leitor(a), se você curte estórias trágicas, visceralmente dramáticas e contundentes, acredito que esses dois livros que citei de Gayle Forman vão te proporcionar inúmeras emoções, das mais azedas às mais doces.

Book Trailer:

Erica Ferro

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Sim! O layout do blog mudou, bem como as capas e as fotos do twitter e da fan page do Sacudindo. Ficou tudo azul, azul da cor do mar. Gostaram? Ah! E lembre-se de seguir e curtir:
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11/09/15

Filme: Para Sempre Alice

Título: Still Alice (Original) / Para Sempre Alice (Brasil)
Ano de produção: 2014
Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Duração: 101 minutos
Gênero: Drama
País: Estados Unidos e França
Sinopse: A Drª. Alice Howland (Julianne Moore) é uma renomada professora de linguística. Aos poucos, ela começa a esquecer certas palavras e se perder pelas ruas de Manhattan. Ela é diagnosticada com Alzheimer. A doença coloca em prova a a força de sua família. Enquanto a relação de Alice com o marido, John (Alec Baldwinse), fragiliza, ela e a filha caçula, Lydia (Kristen Stewart), se aproximam.

Para Sempre Alice há muito estava na minha lista mental de filmes sobre os quais preciso pesquisar e assistir. A temática me chamou a atenção. Quando finalmente o assisti no feriado do dia 7 de setembro, parei e refleti bastante, inclusive a respeito de medos. Não lembrava de ter muitos medos, não realmente grandes e desconcertantes. E não tenho, a não ser o medo de esquecer: de mim, dos outros, do mundo, da vida, de tudo. Nunca parei pra pensar sobre isso porque realmente não é algo doce e agradável de se ficar pensando. Sendo assim, deu pra imaginar, ao menos um pouquinho, o total desespero e desolação de Drª. Alice Howland (Julianne Moore), uma incrível professora de Linguística, escritora e palestrante premiada, extremamente reconhecida em sua área, ao descobrir o seu Alzheimer precoce.




Alice sempre priorizou o conhecimento em sua vida. Para ela, o estudo e o conhecimento são uma espécie de passaporte para o sucesso pessoal e profissional. Em sua visão, um dos meios de se alcançar uma vida digna e com chances de reconhecimento era entrar numa Universidade. Sempre estudou muito e se dedicou quase que integralmente a vida acadêmica. Muito bem articulada, Alice esbanjava inteligência e coerência. Por esse motivo, discutia sempre com a filha caçula Lydia (Kristen Stewart), a única que não havia ingressado no mundo universitário. 




Eis, então, que um precoce Alzheimer resolveu cruzar o seu destino. Tudo começou quando, em uma palestra, ela esqueceu de um termo do campo linguístico: léxico. Daí, as coisas vão, aos poucos, se degringolando em sua vida acadêmica, bem como em sua vida pessoal. Ora bolas, Alice com Alzheimer? Mas ela só tem 50 anos! 




Não faz sentido, e chega a ser cruel. Como uma mente tão inteligente, tão culta, vai se deteriorando de tão arrasadoramente rápida? É muito desesperador. Nesse ponto do filme, meu cérebro já funcionava a todo vapor. Será que tudo nessa vida é em vão? O que vale a pena? Com o que realmente se deve gastar o nosso tempo de vida? Essa e muitas outras perguntas giravam loucamente na minha cabeça.




Uma das cenas que me levou às lágrimas foi o discurso de Alice num encontro de pessoas com Alzheimer e seus cuidadores. Eu fiz questão de digitá-lo, pois quero compartilhá-lo com vocês. Faz-nos pensar bastante acerca de vários pontos cruciais da nossa vida. Ei-lo: 
"Encontro-me aprendendo todos os dias a arte de perder. Perdendo minha compostura, perdendo objetos, perdendo sono, mas, principalmente, perdendo memórias. Durante a minha vida, acumulei muitas memórias. Elas se tornaram, de certa forma, meus bens mais preciosos: a noite em que conheci meu marido, a primeira vez que peguei meu livros nas mãos, ter filhos, fazer amigos, viajar o mundo. Tudo o que acumulei na vida, tudo pelo que trabalhei tanto, está tudo sendo arrancado de mim agora. Como podem imaginar, ou como sabem de fato, isso é um inferno. Mas fica pior. Quem nos levará a sério estando tão distantes do que éramos? Nosso comportamento estranho e frases atrapalhadas mudam a percepção que os outros têm de nós e também nossa autopercepção. Nós nos tornamos ridículos, incapazes, cômicos. Mas esses não somos nós. Essa é a nossa doença e, como qualquer doença, tem uma causa, tem uma progressão. E pode ter uma cura. Meu maior desejo é que meus filhos, nossos filhos, a próxima geração, não tenha que encarar o que estou encarando. Mas, por enquanto, continuo viva. Sei que estou viva. Tenho pessoas que amo demais. Há coisas que ainda quero fazer. Eu me condeno por não conseguir me lembrar das coisas, mas ainda tenho momentos de pura felicidade e alegria. E não pensem que estou sofrendo, por favor. Eu não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para ser parte das coisas. Para permanecer conectada à pessoa que eu era. Eu digo 'Viva o momento'. É tudo o que eu posso fazer. Tento não me punir demais... E não me punir demais por dominar a arte de perder. Mas uma coisa que eu vou tentar reter é a memória deste discurso hoje. Ela irá embora, eu sei que irá. Talvez já tenha ido amanhã. Mas significa muito estar falando aqui hoje, como o meu antigo 'eu' ambicioso, tão fascinado por comunicação." 



A ideia de ver as minhas memórias escorrerem pelos meus dedos quase me causa uma crise de pânico. Mas é uma possibilidade, é algo real. O Alzheimer pode abater qualquer um. Ninguém está livre. Em seu discurso, Alice diz que fala a si mesma pra viver o momento. E, de verdade, é isso que importa. Porque esse momento, o agora, é tudo o que você e eu temos, caro(a) leitor(a). Alice tentou, de todas as formas, não deixar as lembranças escaparem: usava o celular pra deixar lembretes pra si mesma. Em um dado momento, quando ela esquece de onde deixou o celular, entra em pânico. Como é que vai se lembrar de seu nome, idade, nome dos filhos, onde mora etc? 




A grande verdade é que não podemos controlar o inevitável. Alice tentou ao máximo que pôde recordar de si, dos outros e do mundo, mas o Alzheimer é escorregadio, não se pode domá-lo – ao menos por enquanto. 
Não sou crítica de cinema nem nada do gênero, mas, em minha leiga opinião, o roteiro e as atuações foram impecáveis. Julianne Moore dá um show na pele de Alice. Representou muito bem a fortaleza, doçura e, especialmente, a fragilidade de sua personagem em medidas exatas. Não foi sem razão que Para Sempre Alice lhe rendeu um Oscar de Melhor Atriz. Sobre a Kristen Stewart, já li umas opiniões bem fortes a respeito de sua atuação em outros filmes, a exemplo da tão famosa e badalada saga Crepúsculo (que eu nem vi nem pretendo, pois a temática não me instiga). E, honestamente, não achei Kristen tão mal como Lydia. Pelo contrário, dentre todos os personagens, Lydia foi quem se mostrou mais paciente e humana quando Alice mais precisou. Kristen não me decepcionou ao ser a filha que ficou ao lado da mãe até o fim. Alec Baldwin, como o marido John, me cativou de início, mas, embora haja explicações pra suas atitudes no desenrolar do filme, não há justificativas. É difícil vermos quem amamos se esquecendo de tudo, até mesmo de como se vestir? Deve ser, e muito. Porém, creio que não me perdoaria se abandonasse quem um dia amei e que também me amou, ainda que essa pessoa não soubesse mais que eu não estava mais ao seu lado, exatamente por não se lembrar mais de nada. Eu me lembraria, e isso me atormentaria até o fim da vida. Os outros personagens cumprem bem o seu papel. A fotografia do filme é belíssima e me deixou encantada. O tema é duro e isso não deixa de ser retratado no filme, mas é feito de uma forma dosada, que não se vê exageros ou apelações. Emocionou-me de uma forma ímpar e me lançou em vários caminhos reflexivos que me levaram a importantes conclusões acerca de vários aspectos da vida de uma forma geral e também da minha própria existência.




Para Sempre Alice joga na nossa cara algo que costumamos esquecer: não somos nada. Com isso, não quero dizer que não somos importantes ou que não temos valor. O que quero dizer é que de nada adiantar se vangloriar por ter um diploma de doutorado em alguma área. Não importa o quanto se é culto. Não importa o quanto se é rico. Não importa o quanto se é bonito. Simplesmente, não devemos ser vaidosos pelo que temos ou o que somos agora. Pois, no fim das contas, somos todos iguais. Somos poeira ao vento. Somos um sopro. Aqui e já, e depois não mais. 
Que possamos aproveitar o que de melhor existir nessa vida, com alegria, com coragem, com força e com a consciência de que, se pudermos escolher como viver, que decidamos por viver aquilo que nos dá prazer, que de fato nos faz bem. Que os céus nos livrem de dedicarmos nossas vidas aos outros, em função do que querem que façamos. Não negligenciemos os nossos desejos e os nossos sonhos. Só temos uma vida, e ela passa rápido feito fogo de palha. Cada minuto é precioso. Invistamos em felicidade pura e genuína. Amemos com toda a sinceridade que conseguirmos. Façamos o bem pelo prazer de ver o brilho no olhar do próximo. A vida é um mistério e estamos aqui talvez não pra desvendá-la, mas pra senti-la, tateá-la e absorver o que de mais sublime residir nela.
Que a nossa vida valha a pena, mesmo que, ao fim, nem ao menos lembremos dela. Que a sensação de estarmos vivos, e principalmente vivendo, nunca nos deixe. Que o bombear do nosso coração sirva como lembrete de que não somos tão jovens e/ou não temos todo o tempo do mundo.
Viver é raro. Viver é luxo. Luxemos, pois. Não fiquemos estáticos vendo os ponteiros dos relógios do mundo rondarem.
Movimentemo-nos. A vida é já. E já foi.

Trailer:


Erica Ferro

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*Os dados da ficha técnica e as imagens do filme foram encontrados no site AdoroCinema.

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30/08/15

Resenha: Extraordinário - R. J. Palacio

Extraordinário
R. J. Palacio
Editora Intrínseca
320 páginas
☺☺☺☺☺
Sinopse: August (Auggie) Pullman nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial, que lhe impôs diversas cirurgias e complicações médicas. Por isso, ele nunca havia frequentado uma escola... até agora. Todo mundo sabe que é difícil ser um aluno novo, mais ainda quando se tem um rosto tão diferente. Prestes a começar o quinto ano em um colégio particular de Nova York, Auggie tem uma missão nada fácil pela frente: convencer os colegas de que, apesar da aparência incomum, ele é um menino igual a todos os outros.
R. J. Palacio criou uma história edificante, repleta de amor e esperança, em que um grupo de pessoas luta para espalhar compaixão, aceitação e gentileza. Narrado da perspectiva de Auggie e também de seus familiares e amigos, com momentos comoventes e outros descontraídos, Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e comunidade – um impacto forte, comovente e, sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo, que vai tocar todo o tipo de leitor.



"You are beautiful, no matter what they say
Você é bonita, não importa o que eles dizem
Words can't bring you down
Palavras não vão te fazer cair
You are beautiful, in every single way
Você é bonita, em todos os sentidos
Yes, words can't bring you down
Sim, palavras não vão te fazer cair"

(Christina Aguilera - Beautiful)

Extraordinário foi lançado em 2013 pela Editora Intrínseca e é o primeiro livro de autoria da norte-americana R. J. Palacio. R. J. atua há muitos anos no mercado editorial, mas nunca havia publicado nada, até que algo bastante desconcertante aconteceu com ela e os filhos, mais precisamente cinco anos antes de lançar esse livro. Em síntese, o que aconteceu foi o seguinte: ela e os filhos foram a uma sorveteria e, no meio tempo em que o filho mais velho tinha ido comprar milk shakes para eles, o filho mais novo, de apenas três anos, notou a presença de uma menininha com um rosto singular e, como, na sua inocência de criança, não sabia do que se tratava, se assustou e se pôs chorar muito. R. J. Palacio, totalmente desconcertada, muito preocupada em não machucar os sentimentos da menininha, chamou o filho mais velho, empurrou o carrinho do filho mais novo e tentou sair do local o mais rápido possível, derrubando os sorvetes em meio a confusão etc. Ela admite que entrou em pânico e não agiu de uma maneira sensata. Aquela cena na sorveteria não lhe saía da cabeça. Ficou imaginando em quantas vezes por dia aquela menininha, que na ocasião estava acompanhada da mãe e de uma menina que aparentemente era sua irmã, passava por situações tão lamentáveis quanto a que aconteceu com ela própria e seus filhos. Sentiu que o ato de correr em nada ajudou - nem ao filhinho nem a menininha. Notou que talvez tivesse sido melhor ter mantido a calma, quem sabe chamado a menininha e sua mãe pra conversar e mostrar ao seu filho que a menininha, aparecer dos traços diferentes, era uma criança como outra qualquer. Então ela se deu conta de que precisava fazer algo por essa menina e por tantas outras pessoas que sofrem com essa coisa deprimente que é a discriminação e a exclusão daqueles que fogem ao padrão de normalidade vigente, assim como outra coisa igualmente deprimente e horrenda conhecida como Bullying, seja por conta de uma deficiência ou por outros motivos que seres detestáveis acham justo escarnecer sobre essas pessoas. 
Quem me acompanha nas redes sociais e/ou quem leu meu penúltimo post, sabe que, por um bom tempo, eu meio que evitei ler Extraordinário, justamente por saber que me veria na maioria das situações pelas quais o personagem havia passado. Assim como Auggie, também tenho uma síndrome rara, e ela se chama Moebius. Sei bem como é ser tida como uma pessoa esquisita e, em alguns pontos de vista, "assustadora". Assim como esse menininho singular que R. J. Palacio criou, já experimentei do amargo e inesquecível gosto da discriminação causada pela falta de informação, mas, sobretudo, pela falta de gentileza de certas pessoas.
Extraordinário é narrado por August, familiares e amigos - uma sacada que eu achei fantástica, pois entramos em contato direto com Auggie, bem como o vemos pelos olhos de quem o conhece e convive com ele. Como diz na sinopse, Auggie aos dez anos nunca havia frequentado uma escola. Por conta das muitas cirurgias que fez, Auggie passou muito tempo em hospitais, ora operando, ora se recuperando das operações. Sua mãe, com amor incondicional, ensinava a Auggie uma porção de coisas que prontamente ele aprendia, afinal esperteza não lhe faltava.
Porém, eis que o momento chegou e o Auggie precisou ir a escola e encarar não uma, mas várias crianças o olhando como se fosse uma aberração e o evitando como se ele tivesse algo de contagioso. No entanto, assim como eu sempre fiz na minha vida, Auggie as conquistou e mostrou que possuía uma personalidade ímpar e assim elas passaram da repulsa e estranhamento a admiração e o respeito pelo garotinho com a face "deformada", mas com um coração e atitudes extremamente lindas. R. J. Palacio criou um menino por vezes inocente demais para sua idade, bem como maduro demais para ter dez anos. E crível. Não acho que aos dez anos eu era tão maravilhosa quanto Auggie. Contudo, não foi difícil devanear e pensar que é possível existir, por aí, por esse mundo afora, um menininho com os trejeitos, pensamentos e sentimentos semelhantes a ele.
A estória de Auggie poderia ser a minha história e a de tantas outras pessoas com uma deficiência facial. É um livro que precisa ser lido por todos. Todos mesmo. Aliás, faço uma pausa para mandar um abraço todo especial para Tailany Costa, do Despindo Estórias. Ela cursa Letras e, em um dos projetos da universidade, pediu aos seus alunos que lessem Extraordinário. Ela disse que escolheu esse livro inspirada na minha querida pessoa. É ou não é uma fofa? Claro que é! Continuando... Embora Extraordinário seja um livro que trata de eventos com uma carga dramática considerável, R. J. Palacio foi muito sábia ao pincelar tais acontecimentos com uma leveza incrível. É uma leitura que nos faz chorar e depois rir, pra logo após chorar de novo e assim rir outra vez. E é uma leitura que encanta, que faz com que queiramos fazer um mundo melhor para nós e para os outros. É um livro que fala sobre a importância de ser gentil nesse mundo cada vez mais sem harmonia e amor.
O que precisamos ter em mente é que somos todos humanos, iguais no sentido de termos que ser respeitados pelo que somos e exatamente do jeito que somos. Sabe aquela coisa de "não fazer com os outros aquilo que não queremos que façam conosco"? Deixemos que a empatia e a gentileza tomem conta dos nossos pensamentos e de nossas ações. Se praticarmos isso, certamente faremos do mundo um lugar mais aprazível de ser habitado.

Erica Ferro

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Hasta la vista!

08/04/15

Filme: O Jardim das Palavras


Título: O Jardim das Palavras
Ano: 2013
Direção: Makoto Shinkai
Duração: 46 minutos
Classificação: Não recomendado para menores de 10 anos
Gênero: Animação; Drama; Romance
País de Origem: Japão
Sinopse: Takao, que está treinando para ser sapateiro, matou aula e está desenhando sapatos em um jardim Japonês. Ele conhece uma misteriosa mulher, Yukino, que é mais velha do que ele. Então, sem marcar os horários, os dois começam a se ver periodicamente, mas somente em dias chuvosos. Eles aprofundam sua relação e se abrem um para o outro, mas o fim da temporada de chuva logo se aproxima…

Kotonoha no Niwa em japonês, The Garden of Words em inglês, O Jardim das Palavras em português e sinônimo de singeleza, sutileza e beleza em todos os idiomas. Cara criatura que me lê nesse momento, quero te fazer uma pergunta: você já assistiu a algo que te encantou sem fazer quase nenhum esforço, que fez cócegas em seu coração com somente um gesto ou uma palavra? Assim é O Jardim das Palavras. Produzido pela CoMix Wave Films em 2013, escrito e dirigido por Makoto Shinkai, O Jardim das Palavras é um filme nos moldes de anime que encanta pela simplicidade e pelos elementos reflexivos implícitos em cada cena. 


Takao é um rapaz de quinze anos que sonha em ser designer de sapatos. É um moço muito responsável, trabalha, estuda e ainda dá conta de cuidar da casa, já que vive em um ambiente desestruturado no qual cada indivíduo parece viver a sua própria vida sem se importar muito com a dos outros. Quando chove, Takao mata aula para praticar o seu dom de desenhar sapatos no parque nacional Shinjuku Gyoen. É a sua terapia. É a forma como ele para, senta e se põe a desenhar, seja para aprimorar a sua habilidade na arte de criar modelos de sapatos, seja para desanuviar a mente. Yukino é uma mulher de vinte e sete anos que passou por momentos ruins no passado e, por essa razão, desenvolveu uma melancolia profunda e não conseguia sair da inércia, lidar e superar os problemas.Yukino também fazia do parque Shinjuku Gyoen a sua sala de terapia.


Takao e Yukino se encontravam nas manhãs chuvosas. Ele, com seu caderno e lápis, desenhando seus sapatos. Ela, com as suas cervejas e seus chocolates. Pouco a pouco, surgiu uma relação bonita, baseada muito mais nas entrelinhas do que nos diálogos propriamente ditos. Takao contou da sua vontade de se tornar um designer de sapatos e um pouco de si mesmo. Yukino não falava muito através de palavras, mas Takao sentia a sua essência e era capaz de captar as suas emoções. Ambos precisavam aprender a andar melhor. Os dois ansiavam superar os seus problemas, angústias e sofrimentos. 


De uma maneira sutil, singela e pura, os dois cuidavam um do outro a cada encontro matutino. A chuva representava suas dores e seus desalentos. Sem perceber, um se tornou o terapeuta do outro. Em alguns momentos, os gestos eram suficientes. Palavras eram desnecessárias diante dos olhares acolhedores e das ações transbordantes de carinho e cuidado.


Takao auxiliou Yukino a sair do poço frio e sombrio no qual havia caído, ao passo que Yukino incentivou Takao, direta ou indiretamente, a acreditar em si mesmo e em seus objetivos. O Jardim das Palavras é um animação belíssima que trata de um amor imediatamente impossível, mas que deixa no ar a possibilidade num futuro não tão distante. Sobretudo, a mensagem principal é acerca da superação de medos e traumas. Esse belo anime diz respeito ao amor que cada um pode dar para auxiliar a mudança de uma vida, na medida em que outrem consegue nos ajudar a modificar a nossa positivamente.


A explosão de sentimentos e pensamentos fecha bem essa película de 46 minutos, na qual as palavras nem sempre são usadas, mas são sentidas e quase ditas em cada ato e olhar. É um anime tão bom, tão gostoso e envolvente, que eu juro que não senti a passagem dos 46 minutos. Pensei até que só havia assistido a uns 10 minutos de filme quando notei que ele já tinha acabado. A arte toda é tão bem feita. Ver cada cena é um deleite para os olhos. Os desenhos bem elaborados em cada detalhe é de arrancar suspiros e aplausos. A trilha sonora também é outro ponto forte desse anime. O conjunto de imagem e som é capaz de cativar o espectador com facilidade.
Há algum ponto negativo ou algo que me desagradou? Sim, só uma coisinha, mas não dá para revelar que coisa é essa sem contar um pouco da estória. Direi que desaprovei um ato de Takao, ainda que seus sentimentos expliquem a razão que o impulsionaram a tomar uma atitude reprovável, mas que, mesmo assim, considero injustificável. 
Segundo a Wikipédia, ainda em 2013, no ano de lançamento do filme, O Jardim das Palavras também virou mangá com ilustrações de Midori Motohashi e romance pelo próprio Shinkai.
Para finalizar, indico esse O Jardim das Palavras a quem se interessa por singelezas, entrelinhas, poesias, sutilezas e amor. É um filme para quem não tem medo de mergulhar na vastidão dos sentimentos e que se deixa tocar pela arte.

Trailer:


Trilha sonora:


A sinopse e outros dados da ficha técnica foram retirados do site Filmow. Todas as imagens contidas nessa postagem foram retiradas do Google. Caso alguma seja de sua autoria, favor entrar em contato comigo através do e-mail sacudindopalavras@live.com, que não hesitarei nem por um só momento em dar-lhe os devidos créditos. 
Não consegui incorporar aqui à postagem o vídeo no qual o trailer era legendado em português brasileiro. No entanto, tenho uma ótima notícia! Se quiser assistir O Jardim das Palavras online, ele está disponível aqui. Bom proveito, caro(a) leitor(a)!

Erica Ferro

Convite especial: esse é o link da fan page do blog e esse é o do Twitter do blog. Sinta-se à vontade para curtir e seguir as novidades, atualizações e tudo o mais que posto nas redes sociais do Sacudindo Palavras.
Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!

22/02/15

Resenha: Belle - Lesley Pearse


Belle
Lesley Pearse
Novo Conceito
560 páginas
☺☺☺☺☺
Sinopse: Londres, 1910.
Belle, de 15 anos, viveu em um bordel em Seven Dials por toda sua vida, sem saber o que acontecia nos quartos do andar de cima. Mas sua inocência é estilhaçada quando vê o assassinato de uma das garotas e, depois, pega das ruas pelo assassino para ser vendida em Paris.
Sem poder ser dona de seu próprio destino, Belle é forçada a cruzar o mundo até a sensual Nova Orleans onde ela atinge a maioridade e aprende a aproveitar a vida como cortesã. A saudade de casa — e o conhecimento de que seu status como garota de ouro não durará muito — a leva a sair de sua gaiola de ouro.
Mas Belle percebe que escapar é mais difícil do que imaginou, pois sua vida inclui homens desesperados que imploram por sua atenção. Espirituosa e cheia de desenvoltura, ela tem uma longa e perigosa jornada pela frente.
A coragem será suficiente para sustentá-la? Ela poderá voltar para sua família e amigos e encontrar uma chance para a felicidade?
Autora # 1 best-seller, Lesley Pearse criou em Belle a heroína de nossos tempos: uma mulher forte que luta por seus direitos em um mundo perigoso.

Depois de ler Belle, eu quero dizer o seguinte a Lesley Pearse: “Cara Lesley, escreveste um romance completamente envolvente e espetacular!”. Não conhecia o fazer literário de Lesley, mas... caramba, com Belle, foi amor à primeira vista. De verdade, fazia bastante tempo que eu não lia nada tão completo e tão espetacular. Lesley construiu um excelente romance que detém variados elementos: tráfico internacional de mulheres para fins de prostituição nos anos de 1910, investigação, violência física e verbal, reviravoltas impressionantes, personagens fortes e admiráveis e uma trama bem intricada, bem amarrada, que faz o leitor prender a respiração a cada momento delicado da obra. Lesley ganhou mais uma fã!
O livro contém 560 páginas, é narrado em terceira pessoa e se divide em 39 capítulos. Eu li em e-book, mas estava ciente do número de páginas e confesso que me preocupei um pouco com isso porque, se o livro não fosse bom o suficiente, com certeza a leitura ficaria arrastada e eu demoraria “mil anos” para terminar de lê-lo. Mas que preocupação besta, a minha! Belle, de modo algum, é um livro arrastado. Devorei essa obra-prima de Lesley, ao mesmo tempo em que não queria que ela acabasse. A narrativa em terceira pessoa é uma boa porque o leitor tem uma dimensão maior sobre a estória como também acerca dos personagens.
Como a sinopse denuncia, Belle mora num bordel, e sua mãe, Annie, é a administradora do lugar. Annie, por ter as suas razões que, aos poucos, serão reveladas ao longo das páginas, protege Belle para que ela não tenha contato com o que ocorre no andar de cima de sua casa, dando ordens extremas para que a garota não se aproxime do primeiro andar no horário de funcionamento. Ainda que Belle tivesse curiosidade em saber o que acontecia na Casa de Annie e o que as garotas que moravam lá faziam, sempre respeitava as ordens da mãe e acatava os conselhos de Mog, a empregada de Annie que Belle considerava como a sua verdadeira mãe, pelo modo caloroso com o qual a tratava e cuidava dela, muito diferente da fria Annie.
No entanto, por acidente, certo dia Belle acabou descobrindo em que consistia um bordel. Da pior forma possível, é bom que se diga. Sem ser vista, ou era o que ela acreditava, Belle presenciou Mille, uma das garotas de sua mãe, ser violentada e assassinada. Foi, então, que a sua inocência foi quebrada e a sua vida, antes tão pacata e tão monótona, virou de cabeça para baixo. Ela foi raptada por Kent, o homem que matou Mille, e foi vendida para ser prostituta, inicialmente em Paris, posteriormente em Nova Orleans. Belle vivenciou o inferno em Paris. No bordel da malévola Madame Sondheim, foi abusada não uma, não duas, não três vezes, mas cinco vezes, por cinco brutos homens, quando era praticamente uma criança.
Após ficar muito doente em decorrência de tanto abuso e de ser cuidada por Lisette, personagem que tem a sua cota de importância na estória e que, a contragosto, faz parte da organização de tráfico de mulheres, Belle é levada por Etienne, outro personagem que é deveras importante na estória e na vida de Belle. Ele trabalha para organização quase que obrigado, por meio de ameaças. Faz parte dessa rede quase que por questão de sobrevivência, não só pela sua própria, sobretudo pela de sua mulher e de seus filhos. Belle e Etienne criam um laço improvável na viagem até Nova Orleans. Um ponto que briguei com a Lesley mentalmente. Como Belle pode se afeiçoar por Etienne, pessoa que a está levando para ser prostituta em um local ainda mais distante de sua família? Lesley Pearse, com muito tato, nos apresenta Etienne e todas as suas razões. Não que justifique, mas de certa forma explica a sua personalidade e os seus atos. Os dois se interessam genuinamente um pelo outro, contra todas as possibilidades e a lógica.
 Ainda assim, Etienne precisa cumprir o seu trabalho e pensa, realmente, que está deixando Belle em um local bom e seguro, na casa de Martha. Até mesmo Belle, por uns tempos, se deixa iludir e acha que a vida que foi empurrada a viver pode ser boa e levá-la a riqueza. Como nem tudo são flores, Belle mais uma vez é surpreendida ao saber como realmente funciona a casa de Martha. E, assim, Belle começa a sua saga de confiar nas pessoas erradas, iludida de que elas serão seu passaporte para voltar para casa.
Belle sofre muito, muito mesmo na sua jornada como cortesã e prostituta. Há momentos em que ela julga estar na glória e se deixa ludibriar por uma vida glamorosa, mas certamente perigosa. Ela é destemida e usa todos os seus atributos e lábia para tentar se safar de todas as emboscadas nas quais acaba caindo, ora por causa da sua ingenuidade, ora por causa da sua ambição, ora por ambas as coisas. Nem sempre Belle consegue e precisa de ajuda para sair de grandes apuros. Enquanto Belle vivencia os dissabores e as delícias da sua vida como prostitutas, há uma força-tarefa montada por sua querida Mog, que, por anos a fio, não desistiu de encontrá-la. O jornalista Noah, a pedido de Mog, foi quem começou a investigação e, tempos depois, descobriu o desaparecimento de outras meninas, provavelmente ligadas ao desaparecimento da própria Belle. Jimmy foi uma das pessoas mais incansáveis na busca por Belle. Ele, que teve pouco contato com Belle, mas que jamais conseguiu esquecer a menina de olhos azuis e cabelos escuros encaracolados. Um rapazote apaixonado é capaz de ir aos céus ou aos infernos para encontrar a sua amada. O tio de Jimmy, Garth, inicialmente apresentado como um homem rude e intragável, também evolui bastante no decorrer da trama. E, de alguma maneira, todos os acontecimentos da vida de Belle mudaram não só a sua própria vida, como também a das pessoas que entram em contato com ela. Quase sempre para melhor, é bom frisar. Mog desabrochou para vida. Annie deixou que Belle quebrasse um pouco da barreira que sempre as separou. Jimmy se tornou um homem forte, bonito e aguerrido. Garth, o tio de Jimmy, se transformou em um novo homem quando o caminho de Mog cruzou o seu. Noah foi de um simples investigador de seguros a um jornalista de sucessos, cobrindo, com maestria, casos grandiosos e polêmicos. Etienne e Jimmy são os grandes homens na vida de Belle, que a salvaram em momentos cruciais de sua vida e, por essa razão, disputam um lugar muito precioso em seu coração. Etienne é a paixão treslouca, Jimmy é o amor, o porto seguro.
É um livro repleto de fortes emoções. Há trechos com descrições de sexo, ora explícito, ora violento, ora nauseante. Considero uma leitura válida para sair da zona de conforto. Infelizmente, a questão do tráfico de pessoas existe e deve ser investigado, e os culpados, punidos. Traficar pessoas é hediondo. As pessoas que têm as suas vidas bagunçadas pelo tráfico humano precisam ser muito fortes para não sucumbirem às lembranças dolorosas e aterrorizantes.
Sei que falei de Belle de um modo pesado, embora realmente tenha elementos assim em toda a trama, não é tudo o que o livro oferece. Há momentos de doçura, de encanto, de poesia e de amor na obra de Lesley também.
Sim, eu realmente adorei o livro! Há muito tempo que não lia nada tão arrebatador e inquietante. Parabéns a Lesley Pearse, grande romancista inglesa, por essa obra estupenda. Um romance de época muito bem feito. Lesley, pelo que pude observar, fez uma ótima pesquisa histórica, para ser fiel aos cenários e aos lugares que retratou em suas devidas épocas. O toque descritivo dela é na frequência certa. Nem descrições demais nem de menos: na medida exata para propiciar ao leitor uma visão completa das cenas contadas. Novo Conceito publicou Belle em 2012, com uma capa muito bonita e uma diagramação bela. No Skoob, pode-se ver que a maioria das pessoas deu nota máxima para o livro. Mais uma prova de que é um livro verdadeiramente encantador.
Há um segundo livro de Lesley, que é quase como uma continuação e uma finalização da história de Belle. Chama-se Entre o amor e a paixão. A Novo Conceito, quando ainda era parceira do blog, me enviou um exemplar. Quando eu finalizar a leitura de outros livros que também quero muito ler, certamente o lerei e farei uma resenha com a finalidade postar aqui no blog.

Erica Ferro

 

Book trailer:

Se quiser seguir, essa é a fan page do blog e esse é o perfil do Sacudindo no Twitter.
Um abraço da @ericona.
Hasta la vista!