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março 16, 2019

Recomeçando

Este ano observei algumas coisas com relação à abordagem que cada um dá aos deuses. Percebi quatro movimentos diferentes de quatro pessoas. Um não acredita que os deuses nos dão tudo o que pedimos, outro acredita que não importa o que ele resolva porque no final sai do jeito que os deuses queriam, outra acredita que toma bordoada quando erra, e outra acredita que os deuses sempre nos dão o que pedimos quando temos um bom relacionamento com eles. Da minha parte, percebi que essa resposta positiva se dava mais com posturas do que com ritos. Recentemente fiz um rito a Hermes (todo certinho, com sinais indicando sobre as ofertas, e até no dia e horário mais propícios) esperando um resultado o qual não tive de pronto, mas depois adotei atitudes que me levaram à resposta favorável que eu queria. Levar a energia da deidade para a vida foi mais eficaz do que uma comunicação ritual momentânea. Então talvez aquela primeira pessoa que citei não recebe o que pede porque falta levar pro cotidiano aquele sentimento e atitude próprias de alguém com uma boa conexão com o sagrado. E os outros três casos não se anulam entre si. 

Outra coisa com relação a essa questão de o que pedimos e o que recebemos também foi assunto de uma conversa atual. Muitas vezes o que precisamos para conseguir realizar as coisas necessárias ao nosso crescimento e evolução são provenientes de energias as quais costumamos temer. Hades, Ares, Poseidon, são exemplos de deuses que as pessoas têm medo, mas que realizam grandes coisas em nossas vidas se nos sintonizarmos e equalizarmos com eles. Grandes mudanças assustam, mas não se trata de deixar ser levada pelo maremoto, mas de aprender a surfar ondas gigantes. Às vezes precisamos violar uma embalagem para conseguir trazer pra fora o que tem dentro dela e o qual estamos há muito tempo querendo. Já citei em outro texto sobre como Ares te tira do sofá, e seguidamente falei como Poseidon sacudiu minhas estruturas, sem contar como Perséfone vira rainha após ser levada por Hades. Não são forças das quais sentir medo, mas ao mesmo tempo precisamos estar maduros para lidar com elas sem sermos levados na correnteza. Aproveitar essa zona do medo como uma ponte entre a zona de conforto e a zona de aprendizagem, no caminho para a zona de superação/realização. 

E, voltando ao ponto sobre o "fazer correto" para não "levar bordoada", me lembrei de uma dúvida que tiraram comigo este mês. Quiseram saber se poderiam relacionar o porquinho-da-índia a Apolo, já que ele é um roedor e os ratos são dEle. É preciso tomar certo cuidado com essas associações. Os ratos são ligados a Apolo por serem pragas e não por serem roedores (e fofinho) como o porquinho-da-índia. Além disso, se pesquisarmos as civilizações onde esse animal existia nos cultos (já que na Grécia antiga não encontramos registros), veremos que entre os incas o porquinho-da-índia era ofertado à deusa da terra e ao deus da montanha, o que, por um certo sincretismo mais intuitivo do que direto, poderíamos ligar a Deméter e Dioniso

Há outra questão sobre esse "conseguir o que pede" que também observei nessas últimas semanas. Uma pessoa pediu aos deuses algo que ela achava o melhor para a outra, mas não era o que a outra realmente queria para si. E, claro, acabou não dando certo. Apenas quando a primeira reconheceu que estava sendo influenciada por seus próprios sentimentos é que ela, eticamente, pediu a uma terceira que fizesse o rito pela segunda pessoa, por aquilo que esta realmente queria, e aí sim começou a dar certo. 

Esses movimentos todos de depoimentos e perguntas e de gente voltando a me procurar me fez sentir um retorno importante depois daquele tempo tentando estabilizar meus próprios movimentos. Consegui inclusive ler um livro que vou trazer a síntese aqui em uma próxima postagem. Sinto que as coisas vão aos poucos se assentando, e as marolas estão voltando a encontrar a praia, mesmo nesta cidade de instabilidades climáticas e garoinhas refrescantes. 

Voltei a ter sonhos dos quais percebia depois a sincronicidade deles com o relato de outros helenos. Estou tentando me reconstruir junto com o reconstrucionismo. Estou buscando novamente me tornar quem eu sou, como ensinava Píndaro. 

E espero que esse novo espiral de percepções e conexões me leve a escrever mais por aqui. 


[ PS.: O blog está com um layout diferentinho, arrumei para ficar mais clean e mais prático. ]

setembro 02, 2018

Notícias do mundo de lá

Escrevo esta postagem primeiramente para explicar minha ausência. Sei que já estive mais assídua no blog, mas - como todos sabemos - o tempo não é algo linear e em algum momento voltamos à Ítaca. A ilusão temporal de Cronos nem sempre acompanha nosso Kairós pessoal. E, como revelei estar envolta por Poseidon, ele pode nos fazer navegar por anos até aprendermos que "mar calmo nunca fez bom marinheiro". 

Mas, enquanto eu dava atenção à vida prática, os deuses não deixaram de me acompanhar. Hécate - "a que trabalha de longe" e Hermes - "unir, juntar" (etimologias possíveis de seus nomes) foram duas figuras fundamentais nas maiores mudanças que aconteceram na minha vida nestes últimos 12 meses. 

Preces e ritos de minha parte, sinais e graças da parte deles. Pedidos atendidos, independente de eu estar pedindo o mais propício ou não. Cadelas negras se aproximando, músicas tocando na rua com letras proféticas, ciganas me abordando com previsões certeiras, sincronicidades em ritos em conjunto (à distância) com uma amiga fiel. Foram várias as manifestações de proximidade, de aviso, de compartilhamento dEles. Eu poderia ter anotado tudo para listar aqui, as percepções e perscrutações que me encantaram. Mas primeiro que não consegui acompanhar tanta coisa para registrar, segundo que poderia ser mal interpretada. 

O fato é que sempre imaginei que só sairia da casa da minha família de origem se fosse raptada como Perséfone. E, apesar de o movimento ter sido meu - de me candidatar a uma vaga em outra cidade e passar por entrevistas e vir na frente - a mudança só aconteceu porque eu já estava sendo de certa forma arrebatada da vida que eu tinha antes. Até minha família mudou de endereço depois de mim, embora tenham permanecido lá e eu tenha vindo para cá.

Estou no sul há mais de 10 meses. A única região do país onde faltava eu morar. Meu su(l)bmundo de Hades. Às vezes, como Perséfone, também sinto que comi inadvertidamente a romã e não posso mais me desprender daqui. Mas ainda não virei rainha. Ainda me sinto passando pelo campo de asfódelos, onde a mente fica confusa, embora eu não esteja indiferente. Mas aos poucos espero atravessar o palácio a caminho dos Elísios. 

Ainda preciso aprender a conviver com quem me arrebatou. Ainda é difícil. Alguns conhecimentos são pesados de se ter. Algumas iniciações são penosas até você se acostumar. Mas outras são tão intensas de glória que mal cabem em você. Em um palácio, há tanto altas torres quanto baixos calabouços. Em um palácio, há tanto esconderijos quanto janelas. Só se entra nele atravessando uma ponte sobre um fosso. Não dá para ser uma travessia tranquila. E não é qualquer membro da nobreza que pode entrar. 

No meu último aniversário, tive uma festa surpresa com um bolo sobre o qual colocaram a estátua de Tyche, a Fortuna. Talvez a fortuna não tenha a ver com dinheiro (pois esse me anda faltando), mas tenha a ver com as conquistas que fazemos (e isso parece estar acontecendo). Já fui uma pessoa bem mais otimista, guerreira e proativa, algo se perdeu pelo caminho que me tirou o ânimo (ou a Anima/Animus). Mas não posso negar que no caminho dos deuses tenho sido atendida no que peço. Só espero estar sabendo pedir o certo. 

Enquanto isso, vou fazendo a travessia com as armas que restaram depois do espólio da mudança (doei muita coisa, visto o prazo de um mês que tive para vir e o tamanho do apartamento que não caberia tudo o que eu gostaria). Perdi meu labrys para uma inimiga, mas ganhei muitas outras coisas também.

Hoje tenho meu cantinho, minha parceira, minha cachorrinha, um trabalho que me agrada, a cidade que sempre quis, um grupo de estudos de mitologia composto por psicólogas, e várias coisas que escolhi. Quando vencer alguns Cérberos que ainda mordem meu calcanhar (e estou em terapia para conseguir isso), vou poder voltar aqui e mostrar mais uma vez para vocês que os deuses nunca nos abandonam, mesmo na desesperança de um caminho pelo hades -  tão necessário para se aprender a reinar. 

Se um Poseidon externo sacudiu minhas torres no seu terremoto, talvez agora seja minha Atena interna de quem eu preciso para me salvar. Provavelmente minha saída não foi só semelhante à de Perséfone, mas também se pareça à Odisseia de um heroi que se lança no mar revolto até alcançar a vitória. Mesmo que dure anos como a de Odisseu, o importante é já ter iniciado a viagem e partido. Se só os herois alcançam a glória (kleos), espero estar na rota certa da minha. 


maio 15, 2016

Mais do mar

"Quando mergulhei no azul do mar,
Sabia que era amor e vinha pra ficar."
(Flávio Venturini / Ronaldo Bastos)

No feriadão do final de março, viajamos de barco para uma cidade próxima. Antes de essa viagem acontecer, o clima tenso entre a gente quase a cancelou, mas eu tinha certeza que seria uma viagem definidora. E me parece que foi mesmo. 

Saímos ao alvorecer, a lua ainda aparecia ao céu da manhã sobre o iate. Ida tranquila, ela dormindo ao meu ombro. Pousada linda, vista e comida ótimas. Lá, pegamos um barquinho para uma ilha aparentemente deserta, onde conhecemos uma senhorinha que mora ali e que tem dois celulares, página no facebook e tudo, rs, "sou conhecida internacionalmente". Voltamos no barquinho do velhinho marinheiro que já não tinha todos os dentes. Em outro momento, pegamos outro barco pequeno para ir ver a revoada dos guarás, que são pássaros cor-de-rosa. Vimos outros pássaros também, que me fizeram pensar em Afrodite. E vimos golfinhos, que me lembram Apolo e Dioniso. Dessa vez era um lugar longe, umas três horas de barco, e choveu, e ele encalhou, mas conseguimos sair e voltamos na chuva à noite, sob relâmpagos ao longe no horizonte - o que me recordava Zeus e Hera. Abraçada com ela à minha frente no barco, eu ia cantando canções de mar, especialmente a que diz "tenho os olhos no cruzeiro e as sereias como guia, e Netuno me protege noite e dia; e nem piratas nem borracas nem dragões vão me impedir de ser feliz..." (Kleiton e Kledir). Foi um dos momentos mais mágicos. Mas não parou aí. Quando retornamos para nossa cidade, pegamos um catamarã e, enquanto quase todos os passageiros iam embaixo na cabine, nós subimos para perto da vela e ali atravessamos, novamente sob chuva. 

Depois dessa viagem, a baixa maré poseidônica que ela vinha tendo parou, se tornou outra pessoa, relaxada, de bom humor. Em alto mar, ela se refez. E eu confirmei mais uma vez que os deuses olham por essa relação. Por mim. 

Hoje, quando olhei pra lua, crescente e brilhante à minha frente enquanto dirigia de volta para casa após uma boa noite com ela, me senti inspirada a escrever aqui. E depois a lua entrou numa nuvem escura, mas seu brilho realçava lindamente os contornos da nuvem, e a lua estava acompanhada por uma estrela mais ao alto a seu lado, provavelmente Vênus. 

Possivelmente eu escreveria mais detalhes se tivesse escrito antes, mais perto de quando aconteceu, mas no final de abril comecei a entender por que ainda não tinha sentido essa vontade. Eu poderia contar outras sincronicidades interessantes, mas são mais pessoais. 

Dia desses sonhei que estava com ela e sentia algo no meu bolso, puxava para fora e era um colar de contas de preces com um cisne no meio, ao que no sonho eu entendo como sendo de Afrodite, e não sabia quem tinha colocado aquilo ali. No dia que sonhei isso, fui recitar hinos e cantar na beira do mar, e uma das fotos que tirei da minha sombra na espuma ficou super afrodítico "da espuma do mar". Quando voltei para a calçada, estavam dois pombos um em cima do outro, perto do meu carro. Isso me fez lembrar que ontem ela perguntou onde estavam "os passarinhos" (pombinhos de cerâmica) que ela mexeu, ainda estavam onde ela deixou (no altar a Zeus e Hera). E outro dia sonhei com Dioniso, eu o interpretava e dançava. Comecei a notar coisas dele que se incluíram nos nossos dias também. Enfim, meus sonhos com os deuses vêm voltando a ser mais frequentes.

O que eu retiro de reflexão dessas coisas que são aparentemente mundanas no nosso cotidiano é que elas também refletem a ação dEles. Como diz a música, "tudo o que move é sagrado", "sim, todo amor é sagrado e o fruto do trabalho é mais que sagrado". Há que se perceber os sinais e encontrar as sincronicidades, aprendendo a prescrutar as coisas pelas quais devemos agradecer, em tudo. Até no que parece banal ou subjetivo. 

Só sei que as marés, apesar de continuarem subindo e descendo, estão mais tranquilas. Ou então fui eu que ganhei habilidades com a prática, porque, como dizem, "mar calmo não faz bom marinheiro". Fico contente de estar sabendo conduzir minha nave por águas tão bonitas...


março 06, 2016

Marés Poseidônicas nos meus dias

Em novembro de 2013, escrevi o único post sobre Poseidon deste blog (veja clicando aqui). Uma postagem que não se concluía devidamente, pois eu não tinha as respostas dos motivos para senti-lo tão presente na época. Ao menos não teleologicamente (ou seja, o "para quê" eu estava sendo abordada por Ele). Dois anos depois, novembro de 2015, conheci alguém. Logo estávamos saindo, e passamos o fim de semana do ano novo juntas, quando, a 3 de janeiro, começamos a namorar. Afrodite teve muita participação nisso, fazia ritos a ela para me auxiliar, ainda mais por que o começo foi conturbado. A pessoa que os deuses me enviaram cheguei a pensar que teria algo de Zeus nela, leonina, cheia de si, líder no trabalho... 

Então, um belo dia, eu sonhei com Poseidon. Uma estátua dele em tamanho humano, no meu quarto, se mexia e eu sabia que só eu conseguia ver minhas estátuas se mexendo. Ele sorria para mim com um olhar doce, e eu colocava a mão na sua coxa, e desejava ele. Eu pensava como era bom ver esse lado leve e simpático dele, não só o de sacudidor de terras e maremotos que tudo derruba. Acordei sem entender o sonho, mas contei para um amiga e ela prontamente: será que "ela" não é de Poseidon? Eu em nenhum momento tinha pensado nisso, mas acabou fazendo todo o sentido. O lado amoroso do sonho era para mostrar que se tratava do meu relacionamento, pois o olhar e o sorriso dele eram como os dela. E aí as peças foram se encaixando. Não era Zeus - que inclusive se confunde muito com Poseidon. 

Vou falar primeiro dos aspectos físicos: os hinos homérico e órfico sobre Poseidon o descrevem como de belos cabelos escuros (ela os tem), a primeira vez que nos beijamos foi depois de ficarmos diante do mar, ela acha lindo cavalos (já cavalgou kms), ela tem um pingente de prata que dei para ela no formato de um peixe (como ela queria), ela usa um desodorante de 'minerais do mar', ela adora camisas listradas de azul e branco (tipo marinheiro), um dia eu botei um pendrive no carro com várias bandas quando estávamos namorando e ela voltou várias vezes na mesma música "Oceans" do coldplay, quando assistimos Horas Decisivas no cinema - um filme no mar - ela apertava minha mão nas horas de maior tensão (tipo quando as ondas cobriam o barco), entre outros exemplos que talvez eu não me lembre no momento. 

Agora vem o que mais pesa: os aspectos psicológicos. Primeiro: Poseidon, como a carta da Torre no tarô, vem para sacudir as estruturas, derrubar as fachadas, fazer a gente se reconstruir. Eu vinha de um longo tempo de luto, sem sair tanto de casa, agora saio quase todo dia. Segundo: os terremotos e tensões poseidônicas, que vêm em ciclos, são constantes nela e no nosso relacionamento, o que eu chamo de "as marés poseidônicas". Uma hora ela está me assustando, na outra está me conquistando. Sabe aquela frase da Marilyn Monroe "se você não consegue lidar com o meu pior, você não merece o meu melhor"? Pois é, todas as tensões que ela me causa quando joga água em cima de mim são compensadas pela beleza do oceano e pelas brisas marinhas que impulsionam meu barco na calmaria. Ouço dela tanto coisas muito duras quanto coisas muito lindas. O "uau, ela disse isso?" caberia para os dois extremos se eu lhes contar. E as coisas duras, de certa forma, fazem a gente crescer. 

 [ Como citei no post linkado acima, "A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes." ]

O mar é variável, então está muito ligado a mudanças. Uma das mudanças que tenho experimentado é no meu visual. Cortei o cabelo, repaginei meu guarda-roupa... aumentei minha auto-estima, diminuí minha insegurança. No post anterior, citei que a psicologia arquetípica falando do mar menciona que 'Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.' É bem isso o que vem acontecendo.

[imagine um casal Zeus - Poseidon, rs] 

Os amigos dela não entendem, mas eles só conhecem o lado poderoso e imponente do mar (e da leonina), eu conheço o lado que mostra a sorte que tenho de estar nesse reino de benesses e nascentes transformadoras. A minha calmaria, paciência e determinação taurinas ajudam muito a enfrentar os tsunamis, e a paixão antiga que gerações da minha família têm pelo mar deve ajudar também.  

Outra coisa curiosa é que faz tempo que não tenho sonhado mais com o mar cobrindo o lugar onde eu estava, e esses sonhos eram sempre uma constante. Talvez isso também confirme que eles anunciavam este ciclo que agora veio. Só me resta agradecer e honrar a oportunidade. Espero que ela não passe rápido como uma onda, e sim que ancore e se estabeleça como um tesouro submarino. 

novembro 17, 2013

"Nos litorais desse Oceano Atlântico..." ♫

"Não troco minha onda pela de mais ninguém. 
A vida é um rito pagão." 
(Lulu Santos)

# O que sabemos de Poseidon?

Sabemos pelo site do theoi.com que ele é o deus do elemento fluido, que - como o mar circunda e sustenta a terra - ele mesmo é descrito como o deus que segura a terra ("gaiêochos"), e que tem o poder de sacudi-la ("enosichthôn", "kinêter gas"). Sabemos também que o símbolo de Poseidon é o tridente, ou lança de três pontas, o qual ele usa para despedaçar rochas, convocar ou subjugar tempestades, sacudir a terra, e coisas do tipo. Sua imagem não apresenta tanto da calma majestosa de seu irmão Zeus, mas o estado do mar é variável, então também Poseidon é representado às vezes em violenta agitação e às vezes em repouso. Segundo Heródoto, o festival celebrado em honra de Poseidon por 'todos os jônicos' perto de Mycale era a 'Panionia'. No Hino Homérico, ele é descrito como o "senhor dos cabelos escuros", e o hino pede "seja gentil de coração e ajude aqueles que viajam em navios". No Hino Órfico, também se fala dos "cachos escuros" do "deus de cabelos escuros", e pede "acrescente paz gentil, junto a uma saúde de belos cabelos, e verta abundância em uma maré irrepreensível".

# Como ele tem aparecido para mim?

Há uns meses, eu vinha numa onda de boa sorte. Ganhei vários sorteios no meu trabalho, inclusive uma viagem para Salvador para assistir a shows de música (entre eles o da Joss Stone). Eu estava tão movida de entusiasmo ('entheos' = ter um deus dentro), que comecei a selecionar e organizar em um livro os poemas que escrevo desde os 11 anos de idade, e voltei a escrever mais alguns. Acreditando que também fazia parte dessa boa sorte, surgiram algumas vagas para comissionamento no serviço. Mas levei duros golpes em ambas. A primeira acredito que por preconceito, a julgar por uma pergunta que me fizeram na entrevista e o fato de colocarem um homem no lugar. Um turbilhão de emoções (água) e sentimentos de ser injustiçada me invadiu e, como diz a via sacra, "caí pela primeira vez". A segunda por provável desonestidade e injustiça, já que fiz uma das melhores entrevistas da minha vida, mas na hora do feedback a gerente demonstrou nem saber de quem ela estava falando e descobrimos que aquelas vagas (em outra cidade) eram marcadas para pessoas que haviam sido relocadas de um órgão que foi extinto - ou seja, a seleção foi só fachada. Os dias que passam entre você achar que foi excelente na entrevista e a divulgação do resultado são sempre de muita tensão, de noites mal dormidas, de coração acelerado em ansiedade; ainda mais em uma situação em que eu iria mudar de cidade e pensava que era ação de Poseidon me empurrando para outros mares, uma vez que até sonhei com aquela música do Kleiton e Kledir que diz "Tenho os olhos no cruzeiro, as sereias como guia, e Netuno me protege noite e dia. E nem piratas, nem borrascas nem dragões vão me impedir de ser feliz, de levantar a minha âncora e partir..." Todos no trabalho e na minha família estavam seguros de que daria certo, ficamos surpresos. Mas não foi desta vez. E, nesse momento, eu nem chorei mais, senti até certo alívio de não ter que enfrentar uma mudança tão grande por um salário que nem era muito maior do que o meu. E aí descobri que meu pai estava com depressão por problemas financeiros, e precisei ajudar. Percebi que a situação é bem pior do que eu imaginava, e talvez tenhamos que nos mudar para uma casa menor. Nessas horas, refleti em como Poseidon me assusta (e não me assusto tanto com Ares). A depressão do meu pai estava começando a me afetar, porque o valor que utilizei ajudando-o corresponde a 5 meses do meu salário líquido, e porque isso nem vai resolver, porque mês que vem virão as próximas prestações das mesmas coisas. Enfim, essa série de acontecimentos ruins e eu sem entender por que os deuses me chamam pra uma seleção se eles não pretendiam me dar a vaga. Normalmente a gente só vai descobrir os motivos depois, mas também comecei a pensar que devo deixar de ser tão determinista. Talvez nem tudo o que acontece seja planejado. Talvez nem tudo seja planejamento e lógica, às vezes seja puro instinto e emoção. 

E, enquanto isso, sonhos, sonhos com a água invadindo os lugares onde eu estava. No último, me apareceu primeiro o Lulu Santos conversando comigo sobre esses acontecimentos (e, quando peguei as letras de dezenas e dezenas de músicas dele, notei que ele deve ser de Poseidon mesmo, rs). Depois a água começava a subir lá fora do apartamento onde estávamos. Eu ia até a janela e gritava para Poseidon, perguntando por que eu sonho tanto com a água do mar invadindo onde estou. Poseidon passava, azulado, com sua coroa e rabo de cavalo-marinho, me olhava e seguia pelo caminho sem responder; mas aí o "apartamento" girava (coisa que não acontecia nos sonhos anteriores) e eu percebia que estava era tipo em um barco. Do outro lado, tinham índios na praia com arco e flecha, aí eu girava de novo e no alto-mar tinha tubarão. Onde eu virasse, estaria em perigo. Ele não falou, mas mostrou; como se dissesse 'não reclama, que do outro lado também está ruim'. Ele girou o apartamento como se fosse um barquinho... 

Conversei com dois amigos, um deles também é líder na sua religião, a outra é uma curadora. Ambos sugeriram que eu parasse de dar meu dinheiro para meu pai e deixar que ele mesmo resolva suas dívidas, senão seremos os dois afundando. É, "afundando". Olha Ele. Começou lá com a Joss "Stone", passou pelo barquinho à deriva do sonho, e chegou no tufão e no terremoto das Filipinas. No meio disso, discuti e me entendi com um amigo que parece ser muito de Poseidon e acha que é de Zeus (assim como Poseidon queria ser Zeus na época em que os reinos foram divididos - ou assim como o Lulu canta que "o meu destino é ser star", rsrs). E eu aqui, ainda tentando entender Poseidon e suas marés, ainda acendendo vela pra ele, ainda saudando-o toda manhã em que passo em frente ao mar, resolvi recorrer aos meus estudos na psicologia.

# Quem é Poseidon para os psicólogos?

Vamos começar pelo ateniense Viktor Salis. Em seu livro "Mitologia Viva", ele afirma que Poseidon é a força do inevitável e do inadiável, das tarefas essenciais da vida, aquilo que se faz por necessidade e não por vontade. O tridente de Poseidon representaria a união do celeste com o terrestre e com o abissal. Essa mesma força que sacode as marés e os vulcões abalaria o nosso interior e nossa saúde física e mental quando não respeitamos nossos próprios ritmos e "marés".

Raïssa Cavalcanti, em "Mitos da Água" (que tenho um exemplar autografado), vai mais além. A princípio, Poseidon reinava sobre as águas do mundo ctônico, sobre as emoções mais profundas e inconscientes. Depois da vitória de Zeus sobre os Titãs e a divisão dos reinos, Poseidon ficou sendo o senhor do mar, um deus que possibilita o acesso a essas fontes internas de conhecimentos, sentimentos e emoções. Quando ele encarcera os inimigos no Tártaro, fechando sobre eles as pesadas portas de bronze, ele reprime os impulsos primitivos que poderiam perturbar a ordem da consciência. Ao mesmo tempo, Poseidon detém o poder fertilizador das águas, inclusive é associado ao cavalo e ao touro, ambos símbolos de fertilidade. O "sacudidor da terra", "o que faz nascer", também lembra sua ligação com Deméter, com quem se uniu em forma de cavalo. Na França e na Alemanha, se acreditava que o cavalo possuía o espírito do trigo, por isso se cuidava bem dele na época das colheitas. No xamanismo, o cavalo é como um psicopompo, que viaja entre mundos (podendo ser essa uma viagem da terra para as profundezas abissais do mar). Pégaso, o cavalo alado que Poseidon doou a Belerofonte, é símbolo da inspiração poética. Poesia! Raïssa diz que "Posídon é o deus detentor do grande reservatório de energia vital usado nos processos criativos e na possibilidade de transformação, transcendência e espiritualização dessa energia". Ela também afirma que "Posídon governa o seu império como deus justo e bondoso, mas que pode, em alguma ocasiões, se tornar violento. No entanto, quando isso só acontece, é apenas para corrigir e compensar a uniteralidade, a falta de equilíbrio. A Posídon é atribuído o domínio do medo, das coisas imprevisíveis, por isso ele costuma causar temor. Seu tridente é descrito pelos poetas como tão terrível quanto o raio de Zeus; podendo distribuir benesses ou castigos, podendo agitar ou acalmar as águas. (...) Ele dissolve provocando borrascas e tormentas, mas também pode acalmar a fúria do mar e fazer brotar nascentes". 

Voltando a essa questão da criatividade, a psicologia arquetípica também coloca Poseidon como um artista. Ele escolhe uma terra improdutiva sem nada e cria um mundo inteiro para si, cria a sua própria realidade, numa profundidade tão grande e escura quanto o próprio oceano. Ele sente as coisas muito intensamente (a água sempre esteve ligada ao emocional), e as expressa através de sua arte. Ninguém consegue conhecer totalmente esse mundo oceânico, mas esse mundo oceânico pode cobrir o nosso mundo sólido se ele quiser. Poseidon é senhor desse mundo. Aqueles que têm a sorte de receberem permissão para adentrá-lo, deveriam ser gratos e oferecer o devido respeito. Quando Poseidon está agindo, nós vivemos as emoções muito intensamente, e isso nos dá bastante coisa com a qual trabalharmos por uma transformação real. Entender essas coisas, vai lentamente elevar sua auto-estima e sua auto-aceitação.

Jean Shinoda Bolen, em "Os Deuses em Cada Homem", faz duas listinhas sobre Poseidon. Primeiro a de como reconhecer Poseidon ativo em sua vida, dizendo que devemos procurar por: fortes emoções encapsuladas em vez de expressões instantâneas; sentimentos fortes; raiva incontrolável; maus perdedores; desconforto com o mundo acadêmico e os reinos intelectuais; ações mais baseadas no instinto e nas emoções do que na lógica e no planejamento. A outra lista era de possíveis empecilhos para viver o arquétipo de Poseidon: ser visto como alguém emocionalmente instável e inapropriado; os homens serem criticados por conta de a demonstração das emoções não ser tradicionalmente aceita entre os homens; baixa auto-estima por a sociedade não permitir que você seja você mesmo. 

No "Tarô Mitológico", de Liz Greene e Juliet Sharman Burke, Poseidon é a Torre, e as torres sempre caem, as máscaras caem, as fachadas caem, para se revelar o real por trás das aparências. O terremoto de Poseidon sacode e derruba tudo. Como diria o Lulu, "não adianta fugir nem mentir pra si mesmo agora" e "demolirá toda certeza vã, não sobrará pedra sobre pedra".

[Imagem: Poseidon, por Buster Keaton]

# E agora?

Quando li sobre essas coisas, especialmente o "quando isso acontece, é apenas para corrigir e compensar a uniteralidade, a falta de equilíbrio", é que me lembrei que - antes de todo o estresse que vim passando - eu estava numa maré de boa sorte, e que a compreensão disso indica que agora vamos chegar a um equilíbrio, o suficiente para eu não ter de novo taquicardias e insônia.

Além do mais, de novo, 'talvez nem tudo seja planejamento e lógica, às vezes seja puro instinto e emoção'.

Ainda não tenho a resolução de muito do que relatei, preciso saber como vou ficar no trabalho, preciso saber como vamos resolver a situação financeira da família, preciso saber no que vai dar o livro de poesia, preciso saber os rumos dos novos projetos dos grupos de helenismo, preciso saber o que os deuses querem de mim para 2014... Mas, como viajo de férias no próximo fim de semana, vou manter a maré baixa e ver que transformação essa viagem pode me trazer, deixando os resultados para a volta, deixando pra tomar banho de mar quando a maré encher.

Acho também que vou dar uma de Lulu e "fazer da minha vida sempre o meu passeio público e ao mesmo tempo fazer dela o meu caminho só, único". Porque, aqui dentro, é sempre "como uma onda no mar".